1. Presidente Roberto Wagner, o senhor construiu uma trajetória técnica de grande relevância como engenheiro eletricista, especialista em automação e consultor no setor industrial, além de ter percorrido uma longa caminhada institucional no Sistema CONFEA/CREA até chegar à presidência do CREA-RN. De que forma essa vivência prática do chão de fábrica e de mercado moldou sua visão sobre o papel transformador da engenharia na sociedade? Especialista: Na minha trajetória profissional, tanto a minha formação quanto a minha atuação foram construídas diretamente na prática. Trabalhei no chão de fábrica, no contato direto com máquinas e processos, lidando com problemas do dia a dia e problemas reais não podem esperar. Essa vivência me ensinou algo fundamental que carrego comigo até hoje: a engenharia só cumpre o seu papel pleno quando transforma conhecimento em resultado concreto. Se não houver resultado para a sociedade, o conhecimento perde o sentido.2. O Rio Grande do Norte vive um momento histórico ao discutir a atração de grandes Data Centers de Inteligência Artificial e a implementação de sistemas de armazenamento de energia por baterias (BESS). Vindo da área de engenharia elétrica e automação industrial, como o senhor enxerga a complexidade técnica desses novos projetos e o papel da engenharia potiguar para garantir que o estado esteja pronto para essa demanda? Especialista: O Rio Grande do Norte está diante de uma grande oportunidade, capaz de mudar a sua posição e o seu protagonismo na economia brasileira. Nós temos vento, sol e uma vocação já consolidada na produção de energias renováveis. Agora, avançamos para as discussões sobre armazenamento de energia por baterias, data centers e Inteligência Artificial, focando fortemente na tríade do futuro: energia, conexão e processamento. Isso eleva completamente o nível de exigência da nossa engenharia. Um grande data center demanda energia confiável, redundância, alta conectividade e capacidade de processamento. Não estamos falando apenas de novos empreendimentos, mas de uma nova infraestrutura para o Estado. A engenharia potiguar precisa estar na linha de frente dessa transformação, não podemos apenas receber a tecnologia que chega, mas sim participar ativamente do planejamento, da implantação, da operação e da sua evolução. O grande desafio é fazer com que o Rio Grande do Norte deixe de ser um mero produtor e exportador de energia e passe a ser também um grande consumidor e centro de inteligência. Queremos protagonismo não só no ecossistema digital, mas em toda a cadeia de indústrias afins, como sistemas de refrigeração, combate a incêndios e controle de acesso. Precisamos enxergar a engenharia local totalmente integrada e engajada em empreendimentos dessa magnitude, sejam data centers ou sistemas de armazenamento por bateria (BESS).3. Como a sua gestão tem atuado para tornar o conselho mais ágil, desburocratizado e um verdadeiro vetor de desenvolvimento econômico e sustentável para o estado? Especialista: Quando assumi a presidência do CREA-RN, trouxe comigo a convicção de que precisávamos de um conselho preparado para o século XXI. O CREA tem uma missão institucional essencial de fiscalização e proteção da sociedade, mas isso não significa que devamos estar desconectados da realidade econômica e tecnológica do nosso estado e do país. Estamos trabalhando fortemente para modernizar processos, fortalecer equipes, integrar tecnologia à fiscalização e aproximar o conselho dos profissionais, da sociedade e do setor produtivo. Paralelamente, estamos liderando debates em temas determinantes para o futuro do Rio Grande do Norte, como energia, infraestrutura, licenciamento, agronegócio, armazenamento, mobilidade e novas tecnologias. Acredito em um CREA que fiscaliza, mas que também orienta. Essa orientação sobre onde focar e quais competências desenvolver é um compromisso da nossa gestão. Queremos que os profissionais compreendam os desafios do mercado atual. Um conselho verdadeiramente forte não é aquele que se limita a burocratizar ou controlar, mas o que constrói um ambiente de responsabilidade técnica, prosperidade, segurança jurídica e confiança atuando como um verdadeiro catalisador do desenvolvimento regional.4. Qual é o legado que o senhor deseja deixar para as próximas gerações de engenheiros que estão entrando agora no mercado de energia e tecnologia? Especialista: Sinceramente, gostaria que meu legado fosse medido pela nossa capacidade de preparar o terreno e construir o caminho para quem está vindo. O cenário para os novos engenheiros é profundamente dinâmico e desafiador. Quando comecei minha carreira na área de energia, não existiam temas como Inteligência Artificial em alta escala, sistemas de armazenamento por baterias com altíssima confiabilidade e a intensidade do ecossistema digital que temos hoje. Estamos vivenciando uma verdadeira transição energética global. Deixo uma mensagem muito simples e direta para quem está entrando no mercado agora: estudem continuamente, tenham a coragem de inovar e nunca abram mão da ética, a integridade é inegociável. Acreditem na capacidade do Rio Grande do Norte. Não podemos nos limitar a contemplar nossas riquezas naturais; precisamos produzir conhecimento de ponta e exportá-lo para o mundo. Nosso estado vive um momento histórico único com a transição energética e a economia digital. Todas essas oportunidades, seja na energia limpa, no setor mineral, no agronegócio ou no ambiente digital passam obrigatoriamente pelos profissionais da Engenharia, da Agronomia e das Geociências. Ou seja, passam diretamente por nós e pelo fortalecimento do Sistema CREA-RN.