A participação dos combustíveis fósseis no consumo global de energia primária deverá ter uma "ligeira quebra", passando de 81% em 2010 para 75% em 2035, segundo as circunspectas previsões da Agência Internacional de Energia (IEA, na sigla em inglês). Assim, metade da nova capacidade instalada do setor elétrico virá das renováveis, lideradas pelas hidroelétrica e eólica, fazendo com que o percentual das mais modernas (não hidro) chegue a 15% em 2035.São muito mais ambiciosos os ensaios de pactos globais. No tripé de recomendações do Fórum Energético de Viena, em vez desses 25% extra-fósseis em 2035, surge como meta 30% de renováveis para meia década antes. Além disso, ela está vinculada, também para 2030, a um aumento de 40% de eficiência energética, e com acesso universal, como não poderia deixar de ser, a energias limpas, disponíveis e de baixa emissão de carbono.Já a iniciativa "Energia sustentável para todos", puxada pelo secretário-geral da ONU Ban Ki-moon, é mais vaga sobre a eficiência e mais concreta sobre as renováveis. Também para 2030, quer um acerto global na Rio+20 para que, além de universalização do acesso, seja dobrada a "taxa de aumento da eficiência" e ao menos também seja dobrada a parte das renováveis "em todos os países". Conforme tópico 70 do documento "O Futuro Que Queremos", lançado há uma semana pela ONU.Tantas diferenças são sintomas de já puída saia justa: o objetivo de se chegar a um sistema energético global de baixa emissão de carbono continua a ser uma miragem, mesmo depois de duas décadas de políticas climáticas, milhares de programas, iniciativas, regulações, estímulos mercadológicos, e desembolso de centenas de bilhões de dólares em subsídios, fundos, esforços de pesquisa e desenvolvimento tecnológico, ajudas externas, etc. Nada disso permitiu que o peso relativo das energias que menos emitem gases de efeito estufa no consumo final chegasse a 10%, ou que a fatia das renováveis modernas (não hidro) atingisse meros 3%.Pior: na primeira década deste século houve forte aceleração do aumento de emissões globais de dióxido de carbono. Essa também foi a primeira década em dois séculos com aumento da intensidade dessas emissões, devido à forte retomada do carvão, em contraste com a rápida conversão ao gás natural nos anos 1990.São fatos diametralmente opostos às alardeadas metas de mitigação do aquecimento global. Segundo o acordo que emergiu no final de 2010 em Cancún, por volta de 2050 o total das emissões globais já terá que ter caído ao menos à metade, para que a concentração de gases estufa na atmosfera não supere 450 partes por milhão (ppm), nível supostamente capaz de impedir aquecimento superior a 2o C neste século. Mais: a partir daí as emissões terão que diminuir.Só que essa abordagem supunha decisões muito mais robustas do que as que foram adotadas no mês passado em Durban. O adiamento geral para 2020 não oferece mais chance de apenas 2o C neste século. Para tanto, seria necessário que a partir de 2020 passasse a haver uma redução de no mínimo 5% ao ano das emissões globais. O que é altamente improvável, pois, mesmo na melhor fase histórica de em país rico e desenvolvido como a França, a taxa de redução não superou 4% ao ano. É por isso que já se prevê a marca dos 4o C para os anos 2070, ou mesmo antes, sinalizam alguns modelos climáticos.Tudo isso numa situação em que 40% da humanidade (2,7 bilhões de pessoas) ainda depende de biomassas tradicionais, principalmente madeira, carvão vegetal e esterco. E que por volta de um quinto (1,4 bilhão de pessoas) permanece sem qualquer acesso à eletricidade, principalmente no sul da Ásia e na África Subsaariana. Em contraste, os 500 milhões mais ricos, que constituem apenas 7% da população mundial, são responsáveis por metade das emissões. Estão em todos os países do mundo e têm renda superior à da média dos que vivem nos EUA.É impossível deixar de enfatizar, portanto, o grau de radicalidade que será exigido do processo de inovação no âmbito das tecnologias energéticas, combinado a um também radical enfrentamento das desigualdades internacionais e internas a cada nação. A dificuldade não reside apenas no inegável aumento conjuntural dos obstáculos a pactos políticos globais, e sim na imensidão dos desafios colocados pelas imprescindíveis rupturas de inovações revolucionárias, tanto tecnológicas quanto ideológicas.Acelerar o ritmo dessa dupla mudança no âmbito energético é imperativo que nem de longe pode ser estimulado pelos arranjos institucionais do Protocolo de Kyoto, ou mesmo dos melhores planos nacionais direcionados ao desenvolvimento de energias "limpas". Daí a elegante impotência do "World Future Energy Summit" que se realiza esta semana em Abu Dhabi.Fonte Valor por José Eli da Veiga