Todo ano, a caatinga perde quase três mil hectares de vegetação nativa. Boa parte dessas árvores está virando lenha porque quase 40% da energia consumida no Nordeste ainda vêm da queima de madeira. O pior é que as árvores nativas têm papel fundamental na manutenção da vida no semiárido nordestino. A caatinga é a principal formação vegetal do semiárido nordestino e ocupa 10% do território brasileiro. São mais de 840 mil quilômetros quadrados espalhados por 10 estados. Nesta região chove em média 560 milímetros por ano e a estação das águas é concentrada em apenas três ou quatro meses. Por isso, as plantas da caatinga tiveram que desenvolver mecanismos para resistir a longos períodos de estiagem. São as chamadas plantas xerófilas, que o agrônomo Jacob Souto, professor da Universidade Federal de Campina Grande, em Patos, no sertão da Paraíba, ensinou um pouco mais. “São vários os mecanismos que as plantas usam para resistir a meses sem chuva. Um dos primeiros é a queda das folhas, onde a planta deixa de respirar, deixa de perder água e assim economiza. Uma outra característica da planta, é que muitas delas não possuem folhas, as folhas são transformadas em espinhos”. Há 10 anos doutor Jacob vem pesquisando de que maneira a decomposição desse material libera os nutrientes. Para isso, numa área de caatinga preservada, ele espalha pequenas caixas coletoras. Depois, analisa tudo que cai dentro delas. “No bioma caatinga, por ano, em média, é depositado de serrapilheira, no conjunto todo, em torno de 1,8 e duas toneladas por hectare. Para fazer uma decomposição em torno de 70% desse material, leva mais ou menos dois anos, dois anos e meio para degradar.” O regime de chuvas, a altitude e a qualidade de solo determinam a vegetação típica de cada lugar. Dentro do bioma caatinga, há formações florestais diferentes, como em Crateús, quase na divisa do Ceará com o Piauí, uma das maiores reservas particulares de caatinga do país. Essa reserva é muito interessante porque os seis mil hectares dela estão divididos em duas áreas bem distintas. Uma parte fica em uma região conhecida como Sertões do Crateús. A outra fica no alto da Serra das Almas. Um dos maiores centros consumidores de lenha do Nordeste está na Chapada do Araripe, no estado de Pernambuco. Lá está uma das maiores jazidas de gipsita do país, a rocha, que é a matéria-prima básica para a produção de gesso, extraída em minas gigantescas. Ela sai do solo com muita umidade e tem que ser desidratada. O serviço é feito numa calcinadora, local onde a pedra é triturada e depois aquecida em fornos alimentados com madeira. “Os dados que nós temos hoje mostram que do Nordeste sai por ano mais ou menos 25 milhões de metros de lenha.” Doutor Francisco Campelo é engenheiro florestal e analista do Ibama. Ele explica que a lei não proíbe o corte de madeira nativa, mas hoje qualquer desmatamento só pode ser feito com autorização dos órgãos ambientais. “A rigor, toda intervenção numa propriedade que libere material lenhoso tem que ser licenciada pelo estado. A pessoa precisa mostrar que vai tirar a cobertura florestal para fazer uma prática agrícola ou pecuária e que além disso vai respeitar a reserva legal e as áreas de preservação permanente.” Segundo o Ibama, o aperto na fiscalização vem dando resultado. “Hoje, 80% da lenha que entra no pólo é licenciada, é uma lenha legal, e 20% é uma lenha clandestina, que ainda vêm de desmatamentos feitos sem critério e autorização.” Para reduzir o uso de madeira nativa, a cerâmica teve que procurar outras alternativas para sua matriz energética. Teve que encontrar outra coisa para queimar que não fossem as plantas da caatinga. Coco de babaçu, bagaço de cana e até galhos que sobram da poda das árvores urbanas agora são matéria-prima para os fornos. Com pequenas alterações, hoje o mesmo forno produz calor suficiente para queimar e secar as peças, o que representa uma grande economia de madeira. As mudanças também chegaram no campo, 40% da lenha usada na cerâmica ainda vêm de árvores nativas, só que são provenientes de um projeto de manejo sustentável instalado em três fazendas da região. Uma delas fica no município de Assaré e pertence ao agrônomo Antenor Muniz. “Minha propriedade tem 3.752 hectares.” Apenas 5% área são usados para agricultura. A reserva legal ocupa 20%, o restante, cerca de 1.700 hectares entraram no plano de manejo. A área foi dividida em 15 talhões. A cada ano, um deles é cortado. Assim, uma mesma área só vai sofrer o segundo corte depois de 15 anos. “Quando chegar aos 15 anos será feito um estudo novamente para ver se será viável intervenção nessa área novamente para que o órgão consiga licenciar”. No manejo, nem todas as árvores são cortadas. “A gente identifica algumas espécies que são protegidas por lei, como a aroeira e a braúna, algumas espécies que são de interesse da comunidade, de onde eles retiram seu alimento, algumas forrageiras e outras fitoterápicas, além dos abrigos de fauna que existem dentro da área. Essas não se cortam de jeito nenhum”, garante o engenheiro florestal Stephenson Ramalho. Hoje o manejo é a principal fonte de renda da propriedade. “Cada talhão dá em torno de 10 mil metros de lenha e depois que a gente tira as despesas, dá em torno de R$ 5 ou R$ 6 por metro de lenha. A gente ganha em torno de R$ 50 ou R$ 60 mil/ano por cada talhão”, diz Antenor Muniz. A cerâmica também está faturando com os investimentos que fez. Ela virou vendedora de créditos de carbono, uma espécie de moeda verde, concedida a empresas que trabalham de forma ecologicamente correta, para ser negociada no mercado internacional. “Tudo o que nós investimos, houve um retorno somente com as vendas de crédito de carbono. Não estamos contabilizando o que economizou na produção. O que investimos, houve retorno. Ser ecológico dá dinheiro”, afirmou Ronaldo Matos, dono da cerâmica. Fonte: Fonte: G1