A repercussão do pronunciamento da presidente Dilma Rousseff na reunião do Fórum Brasileiro de Mudanças Climáticas, tecendo críticas ao aumento da oferta de energia eólica na matriz elétrica nacional, reforça a necessidade de desmitificar a concepção de que só teremos luz em nossas casas se construirmos grandes hidrelétricas, como Belo Monte. O debate sobre as opções que o Brasil precisa fazer para assegurar sua autonomia energética é urgente. É preciso deixar claro que o fato da nossa energia ser baseada em fonte hídrica não autoriza o governo a dizer ao mundo que a matriz elétrica nacional é perfeita. Embora não seja possível rever os erros cometidos na construção das obras do setor elétrico durante a ditadura militar, insistimos em construir grandes usinas, o que só é possível, atualmente, na Amazônia. Esse modelo de obras faraônicas causa profundos impactos socioambientais e precisa ser abandonado. Sua retomada só seria viável com a mão pesada do Estado sufocando toda e qualquer contestação aos planos do governo, o que não é mais possível, pois afinal estamos numa democracia. Fantasiar o contrário seria delirar autoritariamente com a construção de uma obra como a usina de Itaipu, inaugurada em 1982, que, além de afetar a vida de milhares de pequenos agricultores, destruiu o Salto das Sete Quedas, um dos maiores crimes ambientais do mundo. O problema é que, além de querermos com as grandes hidrelétricas restaurar os faustos de grandeza que fizeram as delícias das grandes empreiteiras, ainda celebramos o pré-sal como a redenção dos nossos pecados. Vamos investir mais de R$ 600 bilhões até 2020 para viabilizar a sua exploração no exato momento em que o aquecimento global lançou a maldição definitiva sobre o uso dos combustíveis fósseis devido ao alto índice de emissões de gases de efeito estufa provenientes da sua utilização. Por outro lado, o potencial de energia dos ventos de acordo com o Ministério das Minas e Energia é de 143 Gigawatts, o equivalente à produção de dez Itaipus. O Brasil apresentou a maior taxa de expansão desta fonte no mundo (63%), saindo de 927 para 1.509 Megawatts nos últimos 12 meses, o que deve nos posicionar entre os dez maiores produtores em 2013. O país tem hoje a energia eólica mais barata do mundo, o que vai nos oferecer a oportunidade de complementar nossa produção energética com a exploração do "pré-Vento" - diga-se de passagem, muito menos oneroso que o outro "pré". Para fazermos mais, bastaria aproveitar o potencial de geração a partir da cana de açúcar, de 28 mil megawatts - o equivalente a duas usinas de Itaipu, que está abandonado em nossos canaviais. O país que poderia ser conhecido como a civilização da biomassa e que teve a oportunidade de liderar a revolução tecnológica para o seu emprego em escala mundial, como substituto dos combustíveis fósseis, assiste impassível o retorno da gasolina como opção majoritária para o abastecimento de nossa frota de veículos leves. Precisamos estar preparados para evitar mais uma vez escolher os caminhos tortuosos que nos fazem chegar sempre atrasados ao futuro que outros países já alcançaram. Seria trágico insistir nos erros do passado quando existem opções para fazer diferente e muito melhor. O que se deve esperar da presidente Dilma é que ela estabeleça um diálogo sincero com a sociedade sobre o custo ambiental e econômico de cada opção disponível no cardápio das fontes energéticas, esclarecendo, por exemplo, as implicações geopolíticas de cada decisão que tomamos ao privilegiar o uso de uma determinada fonte. Isso permitirá que as escolhas se façam de forma democrática, livre e pluralista. Dilma terá que ser mais presidente da República e menos ministra das Minas e Energia. Sergio Leitão - advogado e atual diretor de Campanhas do Greenpeace BrasilFonte: O Estado de S. Paulo