Duas nações problemáticas, catapultadas ao centro da política externa brasileira, Cuba e Honduras são título de um filme do baiano Dado Galvão sobre desrespeito aos direitos humanos, que seria - mas não foi - lançado na semana passada com dois convidados estrangeiros, ambos proibidos de sair de seus países. Um dos prisioneiros em solo pátrio, todos conhecem: a cubana Yoani Sánchez, blogueira e espinho na garganta dos irmãos Castro. Outro, Esdras Amado, jornalista, foi, segundo o Centro Knight para o Jornalismo nas Américas, retido por artifícios judiciais em Honduras. Honduras, lembra?Pois é, Honduras, cujo governo é acusado por ativistas e investigadores, como Esdras, de conivência com abusos aos direitos humanos, quer fortalecer laços com o Brasil. Era, no ano passado, o pequeno país centro-americano cujo governo não era reconhecido pela diplomacia brasileira, após um golpe de Estado derrubar o presidente eleito, Manuel Zelaya - que se refugiou dias depois na embaixada brasileira, de onde passou a fazer política, para enorme constrangimento e desmoralização do Itamaraty e do Planalto. O modelo adotado pela diplomacia brasileira tanto com Cuba quanto com Honduras é um caso a merecer maior atenção, por refletir uma estratégia de expansão do Brasil no Caribe - subestimado por muito tempo no Itamaraty, que sempre o considerou área subordinada à esmagadora atração gravitacional dos Estados Unidos. No governo Lula, iniciou-se uma aproximação política, não só com governos de esquerda, como em Cuba e na Nicarágua, mas com a comunidade regional, o Caricom. Tentava-se apoio para negociações multilaterais, como as da Organização Mundial do Comércio, ou a busca incansável por um assento permanente no Conselho de Segurança das Nações Unidas. Com Dilma, essa aproximação política ganha contornos cada vez mais calcados no mundo dos negócios. Em 2009, ao recusar reconhecimento ao governo de Porfírio Lobo, eleito após o golpe contra Zelaya, o Brasil - acompanhado de outros governos latino-americanos - marcou posição contra mudanças no poder forçadas pelas armas, prática que se acreditava restrita às Américas dos anos 60 e 70. Uma negociação política, que anistiou Zelaya e permitiu a volta do presidente eleito ao país, abriu caminho para o reingresso de Honduras na comunidade latino-americana. E destravou negócios brasileiros, suspensos com a queda de Zelaya. Não faltou quem, no Brasil, defendesse equivocadamente o golpe e condenasse a política adotada pelo governo brasileiro, por abominar o populista Zelaya. Nenhum desses críticos estava no Palácio do Itamaraty, na última quinta-feira, para ouvir uma defesa entusiasmada da aproximação com o Brasil por parte do chanceler hondurenho, Arturo Corrales (que chefiou missão a Brasília com seis dos principais ministros do país). Corrales, que não foi cobrado por ninguém pelo escandaloso histórico de abusos atuais contra os direitos humanos em Honduras - retratado recentemente em página editorial do "The New York Times", com relato de assassinatos de opositores e repressão à imprensa -, reafirmou interesse em ter apoio brasileiro nas áreas de segurança e agricultura familiar; e chamou os empresários para investirem no país, que tem acordo de livre comércio com os EUA e anda construindo uma alternativa rodoviária ao Canal do Panamá, o "Canal Seco", de 54 quilômetros, ligando seus portos de águas profundíssimas no Atlântico e no Pacífico. Foi o próprio presidente Lobo quem reforçou o pleito de Honduras por cooperação com o Brasil, ao encontrar a presidente Dilma Rousseff em dezembro, na posse da presidente argentina em Buenos Aires. Há pedidos hondurenhos para retomada da cooperação em turismo; a FGV faz estudo sobre a viabilidade da produção de etanol no país; negocia-se a compra de Super Tucanos da Embraer (com a venda de equipamentos para um centro de comando aéreo) e a concessão, a empreiteiras brasileiras, de obras hondurenhas. Para incômodo de empresas locais, a Odebrecht é franca favorita e já obteve financiamento de US$ 271 milhões do BNDES para a construção das hidrelétricas de Los Llanitos e Jucatuyo, as principais obras de geração em Honduras. A Andrade Gutierrez construirá a represa de San Fernando, grande projeto de abastecimento hídrico; e quem está encarregado do Canal Seco são OAS e Queiroz Galvão, que já contam com US$ 145 milhões do BNDES, para a obra de custo total de US$ 219 milhões. Nesta semana, uma missão do Itamaraty vai ao país negociar projetos de cooperação. A duvidosa distinção de Honduras como o país mais violento do continente, assolado pela disputa dos cartéis de drogas, reduz a importância do convite de Corrales para que empresas brasileiras se instalem no país para exportar ao mercado americano. Os EUA, aliás, têm programa conjunto com o Brasil para apoiar o combate às drogas no país. Mas as obras e programas - especialmente em agricultura - negociados com Honduras abrem grandes perspectivas para empresas brasileiras naquele mercado. Assim como no nascente mercado cubano. Na visita de Dilma a Cuba, em que ela visitou o porto de Mariel, a cargo da Odebrecht, as conversas não se limitaram à futura zona de processamento de exportações, em estilo chinês, onde já se instalará uma fábrica brasileira de vidros. A Odebrecht negocia com capital angolano a construção de hotel de alto luxo e a exploração de níquel por lá. Os cubanos ofereceram facilidades para brasileiros na exploração de energia renovável com biomassa e de petróleo - a mineira Cowan já negocia exploração em águas profundas cubanas. Fonte: Valor por Sergio Leo